Futuro dos produtores de minério está atado à China

December 3, 2014

A ânsia da China para construir arranha-céus, pontes e carros gerou dez anos de aumentos nos preços e na produção de matérias-primas básicas. Agora, os países exportadores de commodities estão sofrendo o impacto da desaceleração da economia do gigante asiático.
 


No topo da lista estão grandes participantes do mercado de commodities, como Austrália e Brasil, mas há outros países ricos em recursos naturais, como Guiné, Indonésia e Mongólia, onde os minerais constituem uma parte desproporcional da economia e do emprego.

Em países especializados em commodities básicas, como minério de ferro e carvão, a demanda fraca e os preços em queda das matérias-primas estão reduzindo a receita fiscal do governo, ampliando os déficits comerciais e enfraquecendo a moeda.

Em novembro, o dólar australiano atingiu seu menor nível em quatro anos em relação ao dólar americano, em parte devido ao declínio nos preços das commodities e à desaceleração do crescimento da demanda chinesa.

O banco J.P. Morgan cortou sua previsão para o crescimento econômico da Austrália em 2015, de 3,3% para 2,8%, enquanto o Brasil reduziu pela metade sua própria previsão de crescimento para 2014, de 1,8% para 0,9%. Os lucros do setor de mineração como proporção da economia dos dois países mais do que duplicaram nos últimos 15 anos, segundo o Banco Mundial.

O efeito de longo prazo de um colapso nos preços das commodities poderia ser ainda mais profundo, prejudicando as economias dos países produtores e aumentando o poder de compra das economias ocidentais que são seus principais consumidores.

"O impacto do excesso de oferta pode ser uma bagunça", diz o brasileiro Lourenço Gonçalves, diretor-presidente da Cliffs Natural Resources Inc., mineradora de médio porte que acaba de demitir trabalhadores na Austrália.

Ao mesmo tempo, as grandes mineradoras afirmam que ainda pretendem continuar batendo recordes de produção. Rio Tinto PLC e BHP Billiton Ltd. têm despachado carregamentos marítimos de regiões remotas da Austrália a um ritmo sem precedente.

Para os países menores, a crescente dependência da mineração é ainda mais evidente. Na Guiné, a parcela dos lucros da mineração como percentual do PIB mais do que triplicou, para 18,3%, entre 2000 e 2012, ano mais recente para o qual há dados disponíveis, segundo o Banco Mundial. Na Mongólia, ela quase dobrou, para 11,9%.

Atualmente, nenhum país pode preencher a lacuna de demanda aberta pela China, embora executivos de mineradoras esperem que a Índia possa ajudar a absorver produção nova. Ainda assim, a expectativa é que a China dite o ritmo dos próximos dez anos.

Nenhuma commodity tem dependido tanto da China quanto o minério de ferro, e por um bom motivo: a China produz a metade do aço do mundo e 98% do minério de ferro vai para a produção de aço. A China importa perto de 65% das 1,2 bilhão de toneladas de minério de ferro negociados anualmente nos mercados marítimos.

Um número muito maior de países passou a se alimentar da demanda da China: Em 2003, oito nações exportaram mais de 10 milhões de toneladas de minério de ferro. No ano passado, foram 15 países.

A Austrália, maior exportador de minério de ferro do mundo, envia 80% de suas exportações do minério (avaliadas em US$ 67 bilhões em 2013) à China, que ainda absorve 50% da produção brasileira exportada.

Nos últimos anos, as mineradoras desses dois países aumentaram a produção, o emprego e os investimentos em ferrovias e portos, prevendo que a indústria de aço da China também elevaria a produção e precisaria de mais minério de ferro.

Em vez disso, nos primeiros oito meses do ano, o consumo de aço na China caiu 0,3%, para 500 milhões de toneladas, o primeiro declínio desse porte em 14 anos.

"O país está entrando num regime de menos consumo de aço, mais típico de economias ocidentais modernas e desenvolvidas", diz Daniel Rohr, analista da Morningstar Inc.

O resultado: um excedente cada vez maior de minério de ferro. A previsão é de que, em 2018, esse excesso passe de 300 milhões de toneladas, o que poderia levar os preços no próximo ano para a faixa de US$ 50 por tonelada, segundo o Citigroup. O minério de ferro iniciou o ano a US$ 135 por tonelada e estava em US$ 70,60 ontem.

A resposta óbvia seria que a indústria de minério de ferro cortasse significativamente ou interrompesse a produção. Mas não há sinais de que alguém esteja planejando fazer isso.

A expectativa é de que Austrália e Brasil tirem do mercado outros participantes. A Austrália agora responde por cerca de 50% de todo o minério de ferro comercializado por via marítima.

Depois de investir bilhões de dólares em ferrovias e portos, BHP e Rio Tinto afirmam que continuarão produzindo e cortando custos para compensar os preços em queda. "Nossa intenção é sempre maximizar a produção com a capacidade existente", disse recentemente Andrew Mackenzie, diretor-presidente da BHP.

Há ainda uma outra ameaça: a sucata de aço, que em quantidades suficientes pode servir como um substituto aceitável para o minério de ferro. Em poucos anos, a China começará a colher grandes volumes de sucata de aço da primeira geração de carros e máquinas de lavar produzidos em massa no país.

"O volume de reciclagem de material vai aumentar e isso significa que haverá mais aço a partir de sucata e não de minério de ferro e carvão metalúrgico", disse Mackenzie.

A adição da sucata vai agravar o excesso de oferta de matérias-primas do aço - e o impacto dos preços mais baixos sobre a economia global.

 

Fonte: Tha Eall Street Journal

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