Queda do petróleo ajuda a China, mas deve agravar deflação local

December 4, 2014

A queda do petróleo para sua cotação mais baixa dos últimos cinco anos, registrada esta semana, após a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de manter a produção inalterada, deveria ser festejada na China, ávida por energia. Na superfície, a queda dos preços do petróleo beneficia o maior importador mundial do combustível.

 

 

Os volumes de petróleo importados pela China estão subindo de forma mais acelerada do que as refinarias podem processar, o que gera estoques comerciais e estratégicos elevados. Pequim divulgou na semana passada a primeira estimativa formal do nível de petróleo estocado como parte da primeira fase de sua prática estratégica de formação de estoques - 91 milhões de barris, em quatro lugares diferentes - e a segunda fase está em desenvolvimento avançado.

 

 

"A queda vertical dos preços do petróleo beneficia a China", diz Li Yan, analista de petróleo da empresa de informações petroquímicas Oil Chem. "Ajuda o país a reduzir o custo das importações e a sustentar o armazenamento de petróleo que, por sua vez, reforçará a segurança energética."

O quadro, porém, é mais complicado do que isso, pois a China é, ao mesmo tempo, o quarto maior produtor mundial de petróleo.

 

Como tal, o país é vulnerável à queda dos preços tanto quanto qualquer outro país produtor. A China extraiu no ano passado 4,45 milhões de barris/dia de petróleo, ficando atrás apenas de Arábia Saudita, Rússia, e Estados Unidos. O país asiático, além disso, tem produzido mais petróleo do que todos os membros da Opep, com exceção da Arábia Saudita. A China aumentou a sua produção de petróleo em quase 750 mil b/d nos últimos dez anos, mas, no mesmo período, o consumo de petróleo aumentou 3,7 milhões de b/d.

 

Para a China, o recuo dos preços do petróleo intensificou a preocupação com as perspectivas de deflação regional no interior do país, dependente de recursos naturais, enquanto a indústria instalada na faixa litorânea comemora a queda dos custos dos insumos.

 

A queda dos preços pode dificultar para alguns dos governos regionais chineses o cumprimento das obrigações orçamentárias municipais e provinciais. E, o que é mais preocupante, ela também fragiliza os fluxoa de empréstimos que muitas vezes conseguem sustentar as economias locais.

"Especialmente [a distante província de] Helongjiang [no nordeste do país] está sendo duramente atingida pela queda dos preços dos recursos naturais", observa Arthur Kroeber, diretor da empresa de pesquisa e assessoria Gavekal Dragonomics de Pequim.

 

Na província de Heilongjiang, próxima da fronteira com a Sibéria e que abriga o maior campo de petróleo do país em Daqing, as greves de professores vêm se propagando, diante da incapacidade dos endividados governos municipais de elevar salários ou benefícios. A economia de Heilongjiang cresceu 5,2% nos três primeiros trimestres deste ano, bem abaixo da expansão de 7,4% do país como um todo.

 

Isso reflete o problema muito maior das regiões interioranas da China produtoras de carvão. Foi o carvão, e não o petróleo, o combustível do acelerado crescimento econômico chinês. A China é, de longe, o maior produtor e consumidor mundial de carvão.

 

Mas os preços internacionais do carvão caíram ao menor patamar em cinco anos no mês passado, devastando as áreas interioranas que abastecem a base industrial chinesa instalada na faixa litorânea.

 

Na província de Shanxi, produtora de 25% do carvão chinês, grupos privados de mineração e usinas siderúrgicas endividados quebraram, enquanto uma operação de combate à corrupção deteve centenas de autoridades que os ajudavam em tempos melhores.

 

Apesar dos problemas, a queda dos preços das commodities ao menos propiciou a oportunidade de reestruturar a forma de taxação dos produtos naturais, o que o governo tentava fazer havia muitos anos. A reestruturação dos impostos nos períodos de preços baixos adia o impacto imediato sobre as grandes produtoras de energia.

 

Por exemplo, por muitos anos o imposto de recursos naturais incidente sobre o carvão (arrecadado pelas províncias) era um tributo baixo e inalterado, baseado no volume de produção. A partir deste mês ele será calculado sobre o valor. Uma reforma semelhante para o caso do petróleo e do gás teve início em 2010, e a alíquota foi elevada no segundo trimestre.

 

Xinjiang, região etnicamente dividida onde estão 40% do carvão da China, além de grandes campos de petróleo e gás, obteve há pouco o direito de taxar as vendas locais no varejo da China National Petroleum Corp. A estatal controla o grupo PetroChina, com ações negociadas em bolsa. Isso deverá ajudar Xinjiang a cumprir seus enormes compromissos de gastos com infraestrutura, e a manter a energia chinesa fluindo mesmo com os preços das commodities no menor nível em vários anos.

 

Fonte: Valor

 

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