Estudo do Cetem mostra baixo risco de contaminação

April 1, 2015

Em 2010, a polêmica sobre o arsênio em Paracatu, levou a prefeitura a encomendar um estudo para saber se a população estava ou não em risco. O estudo, demandado pelo Ministério Público, foi coordenador pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), órgão de pesquisa vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e entregue em de março de 2014.

 

A Kinross recorre a esse trabalho e também a outro pago pela empresa para dar base à argumentação de que a população não tem com o que se preocupar. O vice­-prefeito, José Altino da Silva (PP), médico urologista, diz que o trabalho do Cetem o fez acreditar que não há razões mesmo para temor. Mas é um caso típico de copo meio cheio, meio vazio. No site do Cetem, entre as principais conclusões há mesmo frases que soam tranquilizadoras. "Mais de 95% da população amostrada apresentaram baixos teores de arsênio em urina", diz o texto, que cita como referência para esse exame a medida de 7,49 µg/L, valor médio observado na população dos EUA. No Brasil, segundo o texto, há poucos dados para comparação. Outra frase reconfortante: "Os teores de arsênio em cabelo da população também indicaram baixa exposição." Os mais de 70 pesquisadores que trabalharam no projeto examinaram quase 1.000 moradores durante 34 meses, com mais de 40 anos de idade e que vivem na cidade há no mínimo 20 anos.

 

As águas que abastecem as casas de Paracatu "também mostraram baixos teores de arsênio, não estando contaminadas" e a quantidade de arsênio presente na poeira está "dentro da faixa encontrada em outras áreas urbanas em vários locais do mundo". Mas o Cetem admite que o estudo não põe um ponto final nas dúvidas. E faz algumas recomendações. A mais inquietante delas expõe a possibilidade de que crianças de Paracatu estejam expostas a níveis inseguros de arsênio. O Cetem recomenda que "o poder público de Paracatu lidere iniciativas imediatas de novos estudos sobre a exposição ao arsênio nas crianças moradoras em áreas próximas à mineração, uma vez que a pesquisa detectou teores de arsênio em solos, os quais podem eventualmente vir a ser ingeridos por crianças, devido ao hábito mão-­boca, muito frequente na idade pré­ escola".

 

Numa primeira versão do relatório final, datada de dezembro de 2013, no item "Avaliação de riscos à saúde humana", os cientistas escreveram que existem em Paracatu "riscos inaceitáveis" relacionados ao arsênio nas estimativas sobre efeitos cancerígenos em crianças. Lembrando que a avaliação de riscos é conservadora por questão de precaução, os autores completam: "Os resultados mostraram que a exposição ambiental ao arsênio não representa perigo potencial de efeitos não cancerígenos em adultos, mas as crianças podem estar sob risco. Para efeitos cancerígenos, crianças e adultos estão sob riscos. As vias que mais contribuem para os riscos são a ingestão de água durante o banho recreativo e inalação de partículas". A assessoria de imprensa do órgão disse que a coordenadora do estudo, Zuleica Castilhos, está reanalisando os resultados. A versão final do relatório ainda não ficou pronta.

 

A Secretária da Saúde de Minas Gerais não descarta os temores dos pesquisadores sobre câncer em Paracatu. Disse, segundo documento apresentado pela prefeitura, que a incidência da doença na cidade é comparável a de outras 21 cidades mineiras de porte semelhante. E que, por ora, com base em dois estudos que consultou não é possível dizer que haja motivo para preocupação. Mas a secretaria faz ressalvas. Diz que são necessários estudos epidemiológicos para atribuir à mineração casos de câncer em Paracatu. E que não há dados sobre o número de novos casos de câncer a cada ano no município "para fundamentar se há o aumento da incidência [da doença]".

 

No resumo do estudo Cetem postado no site, há outras recomendações: a implantação de um programa permanente de vigilância ambiental e a apresentação de dados sobre o nível de exposição ao arsênio a que estão expostos os trabalhadores da mina de Kinross, de modo a avaliar o nível de contaminação. Os trabalhadores não foram examinados pelos pesquisadores. O Cetem pede ainda avaliação mais profunda sobre o arsênio em áreas agrícolas irrigadas com água de um ribeirão que fica abaixo da barragem de rejeito da mineradora. O promotor público estadual de Paracatu, Paulo Campos Chaves, disse que pretende pedir esses estudos complementares e que espera vê­los iniciados ainda este ano. Mas, acrescenta: ainda é preciso achar fontes de financiamento. Chaves não parece muito sensibilizado com as recomendações dos cientistas. "No momento, não existe perigo nessa questão do arsênio. Existe sensacionalismo."

 

Um dos críticos mais contundentes da Kinross em Paracatu é o médico Sergio Ulhoa Dani. Ele vive atualmente em Berna, da Suíça, onde trabalha como médico oncologista no Hospital Universitário da cidade. Dani diz que tem estudado sobre contaminação com arsênio e faz críticas à metodologia do estudo do Cetem. Mesmo assim, em carta à Justiça de Paracatu, Dani cita um dos achados do estudo na primeira versão do relatório: maior concentração de arsênio na urina de moradores que vivem em áreas mais próximas à mina. O médico diz que se fosse confiável, esse dado já seria suficiente para interromper a mineração "e dar início ao tratamento e às indenizações da população afetada". Dani insiste: é mais preocupante em Paracatu a exposição constante das pessoas ao arsênio do que as quantidades da substância. E que há pesquisas que associam essa exposição ao câncer, ao diabetes e ao Alzheimer. "A gente tem a tranquilidade de fazer nossas afirmações [de que a população não está em risco] se baseando em estudos concretos", afirma o executivo da Kinross, Gilberto Azevedo. "Essas questões já foram apresentadas a autoridades, desde órgãos de licenciamento, como o Ministério Público. Eles têm conhecimento dos estudos. Nós não somos uma empresa que está operando de forma clandestina, longe da sociedade, longe das autoridades."

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